O Pequeno Jardim
A luz do sol ilumina timidamente a janela,
dando-lhe uma esperança ilusória.
Seus olhos brilham, disfarçando uma dor difusa que
supera seu limite físico — e que, por vezes,
suaviza-se.
O desejo que alimenta o corpo frágil daquele menino
sentenciado a viver numa cadeira de rodas,
aprisionando sentimentos nobres e minimalistas,
que tentam motivá-lo a soltar as mãos da Solitude —
amiga inseparável que o acompanha desde
o parto sofrido, que desviveu sua pobre mãe.
Se não fosse a serena e silenciosa Solitude —
quem lhe mostraria os segredos que insistem
em se esconder entre a luz e a sombra?
O isolamento abrira seus olhos para mundos
deslumbrantes escondidos em velhas páginas de livros
tão belos.
No entanto, o menino também queria partilhar sonhos;
imaginava-se tocando em todas as coisas.
Queria saciar a insaciável ânsia que nasce do
pensamento
e antecede o toque.
O menino pensativo torna-se capaz de apreciar
o movimento da vida que se agita num simples jardim,
habitado por flores e insetos radiantes,
que lhe sorriem todas as manhãs, mesmo quando
chuvosas.
Seus braços atrofiados lutam para girar as rodas da
velha cadeira
em direção à janela que dá vista à pequena floresta
cheia
de vidas insignificantes.
‘Por que a segurança que lhe dou entre estas paredes
não acalma
sua mente?’ pergunta Solitude, toda vez que o menino
se inclina na janela
para apreciar o jardim.
‘Por que minhas reflexões não acalmam seu coração?’
pergunta Solitude,
toda vez que o menino se apoia na janela para observar
as crianças, brincando felizes na rua, como se o céu
descesse à terra.
Através de uma pequena fresta de luz,
ele pode ver o tempo dizer ‘adeus’.
As folhas caem das árvores…
os insetos socializam no jardim…
O menino quer viver além das páginas dos livros.
Deseja dar vida aos desejos que a Solitude não
consegue entender —
extrapolar sua limitação existencial,
que o reduz a pensamentos e observações.
A Solitude é uma amiga incapaz de olhar o mundo
através da janela.
Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.
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