terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Despertar de Íris - Capítulo: O Falecido








Um homem com oitenta e poucos anos falecera em um dos apartamentos do condomínio — dois andares abaixo do apartamento onde residia a celebridade, que se ausentara para cumprir uma de suas agendas sociais: um evento social sobre sustentabilidade e meio ambiente patrocinado pelo Governo Federal em parceria com uma ONG norueguesa.

Políticos, empresários, cantores, atores, jornalistas, intelectuais e influenciadores discursariam sobre a importância de ensinar música, dança e pintura às meninas e meninos residentes em favelas de palafitas como um grande instrumento de inclusão social.

Daniel e Íris observavam o desespero da família do falecido. Choros e gritos acompanhados de certa confusão. Ela se interessou pelo acontecido: a morte era algo intrigante para uma bioandroide. De fato, a morte é libertadora em vários aspectos, pois, de agora em diante, o falecido seria pintado como um santo caído dos céus.

Esquecer-se-iam de suas traições, trambicagens, egoísmo extremado, que muitas vezes, levava-o a se satisfazer com a humilhação alheia; no entanto, o script é quase sempre o mesmo no final: falhou como pai, esposo, homem de negócios; por fim, um zero à esquerda clássico com a proeza de conquistar o maior dos fracassos: fracassar como ser humano.

A lábia e o sorriso falso do falecido de forma plausível continuariam a enganar seus estúpidos herdeiros: um bando de cabeças de bagre inspirados a imitar as falcatruas do patriarca. Incluir-se-ia nesse show de horrores os bajuladores de plantão: eternos sonhadores de generosas migalhas. Não! Nada de estrelinha no céu. O falecido estaria mais para esterco. Verdade seja dita: seu maior crime foi enganar a si mesmo. Ele despencou com uma ilusória grandeza sem habilidades cognitivas para aceitar que nunca passou de um peixinho metido a tubarão branco.

Racista, vagabundo, falso e ordinário; agora, com a morte de seu corpo nojento e decrépito, que destino teria sua alma? Aqui é fácil enganar uma sociedade cheia de tolos. Lá! Sabemos que existe um ‘lá’, que nossos olhos não conseguem ver - não é nota musical não! — lá não há tolos para ludibriar.

Daniel conhecia a história do falecido, mas preferiu assistir ao corre-corre da família em silêncio — chegara aos ouvidos de Daniel que o falecido costumava criticá-lo: chamava-o de vagabundo, vez por outra, um homem com poucas ambições; no entanto, nem as críticas e o recém-falecimento levaram sofrimento à mente de Daniel. Seus pensamentos eram imunes às críticas recebidas como também imunes à felicidade do falecimento de quem o criticava.

Trecho do livro Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas do autor Heider Broisler. 


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A Cidade Vive

 

A chuva acalmara-se; a água ainda corre pelas ruas

arrastando sujeira e pequenas coisas descartáveis.

O ar está mais agradável àqueles que não têm teto.

A água lava o rosto da cidade como lágrimas lamentando

o escárnio que conduz ao desencontro de ações benevolentes.

As ruas são como cicatrizes que nos guiam para a ilusão da consciência;

a inquietação nos impede de intuir

o que as construções têm a nos dizer.

Guiamo-nos pelo desejo de tudo agora;

a cidade é coagida a destruir pessoas e projetos

confinando-os em prisões que os enchem de autoconfiança,

mas tão frágil diante do inevitável.

A cidade não entende por que nasceu sob

‘apartheid’, minuciosamente arquitetada por

planejadores motivados por uma ilusão de superioridade.

A cidade parece mais harmoniosa aos olhos

daqueles que a sobrevoam.

Prédios grandes e pequenos parecem abraçar

uns aos outros como velhos amigos.

Pequenos seres com grandes aspirações movem-se

por ruas e calçadas, sem se olharem, em direção

aos bairros cheios de ansiosidade e conceitos territoriais;

lá de cima, tudo parece fazer sentido:

parques e árvores contornam o desespero que alimenta

a violência cotidiana;

carros, drogas e prostituição competem com vitrines

decoradas para datas comemorativas.

A cidade moderniza-se, mobiliza-se,

mas não se humaniza —

as lágrimas da chuva escorrem apenas pelos prédios.

Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O Palco

 

Pequenas lembranças, comumente desprezadas,

não se dissolvem na mente de um ser obscuro;

um sorriso, mesmo que efêmero, pode criar raízes

profundas e dolorosas àqueles que pouco atuam:

o acanhado que não se rende ao egotismo.

Àquele cujo passado não vai além do inglório, a mais trivial

das conversas não se dissolve na dimensão do tempo.

A morte corrompe a psique para depois domar o corpo.

Seu tempo se condensa num álbum empoeirado de fotos,

restando ao esquecido a incapacidade de se refugiar numa

vida cheia de personagens disfarçadas com máscaras

deslumbrantes modeladas com o mais puro narcisismo.

Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Emily







Ela acolheu o tempo como ninguém mais.

Defronte muitas opções, o senhor do infinito

somente se sentia em paz, quando ao seu lado,

para compartilhar um fluxo de eventos,

inundados de reflexões internas,

despreocupado com questões triviais...

Ninguém era tão íntimo do tempo quanto ela.

Infelizmente, seus pensamentos e sentimentos,

que se escondiam sob aquela pele pálida,

acompanharam-na pela eternidade, deixando-nos

órfãos de uma beleza misteriosa sem igual.

Gostaria de ter visto aquela mulher doce e silenciosa

a caminhar por aquelas colinas, enquanto ouvia o vento frio

acariciar seu rosto, sussurrando-lhe fragmentos

de percepções, que só ela conseguia desvendar.

Não há fim! Não, a existência de um fim não é

compatível com aquele gênio sublime, que um dia

caminhou por esta terra cheia de gente miserável...

A sensibilidade de Emily sabia conviver em paz

com a razão e o sentimento, dando-lhe o poder de

ajustar o tempo e o espaço para desvendar as minúcias,

que a vida esconde das pessoas comuns, ou indignas...

Quantos mistérios e prazeres eu poderia encontrar por detrás

daquele semblante professoral?

Ela não se rendeu a dogmas ou regras, que nos impedem

de sonhar e refletir sobre as sutilezas, que se escondem entre

as brechas do pensamento, com às quais dialogava em particular

ao caminhar por aquelas frias colinas — ela amava sua família;

porém, sentia-se, verdadeiramente livre, quando mergulhava

nas profundezas de sua própria mente —

ela também amava a solidão.

Quem sabe? Emily tornara-se uma voz invisível, que vagueia

de tempos em tempos, a inspirar a intuição de seres despertos a

compreender a sensibilidade, com à qual podemos nos salvar.

Senhorita Bronte: mulher de beleza singular com

um olhar transcendental, discretamente benevolente,

à qual a vida não precisou dar-lhe muito tempo

para que pudesse deixar-nos um magnífico e imensurável legado.

Mulher silenciosa com lábios delicados e reclusos...

Seria um privilégio tocá-los...

Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.

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O Despertar de Íris - Capítulo: O Falecido

Um homem com oitenta e poucos anos falecera em um dos apartamentos do condomínio — dois andares abaixo do apartamento onde residia a celebri...