A chuva acalmara-se; a água ainda corre pelas ruas
arrastando sujeira e pequenas coisas descartáveis.
O ar está mais agradável àqueles que não têm teto.
A água lava o rosto da cidade como lágrimas lamentando
o escárnio que conduz ao desencontro de ações
benevolentes.
As ruas são como cicatrizes que nos guiam para a
ilusão da consciência;
a inquietação nos impede de intuir
o que as construções têm a nos dizer.
Guiamo-nos pelo desejo de tudo agora;
a cidade é coagida a destruir pessoas e projetos
confinando-os em prisões que os enchem de
autoconfiança,
mas tão frágil diante do inevitável.
A cidade não entende por que nasceu sob
‘apartheid’, minuciosamente arquitetada por
planejadores motivados por uma ilusão de
superioridade.
A cidade parece mais harmoniosa aos olhos
daqueles que a sobrevoam.
Prédios grandes e pequenos parecem abraçar
uns aos outros como velhos amigos.
Pequenos seres com grandes aspirações movem-se
por ruas e calçadas, sem se olharem, em direção
aos bairros cheios de ansiosidade e conceitos
territoriais;
lá de cima, tudo parece fazer sentido:
parques e árvores contornam o desespero que alimenta
a violência cotidiana;
carros, drogas e prostituição competem com vitrines
decoradas para datas comemorativas.
A cidade moderniza-se, mobiliza-se,
mas não se humaniza —
as lágrimas da chuva escorrem apenas pelos prédios.
Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.
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