quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A Cidade Vive

 

A chuva acalmara-se; a água ainda corre pelas ruas

arrastando sujeira e pequenas coisas descartáveis.

O ar está mais agradável àqueles que não têm teto.

A água lava o rosto da cidade como lágrimas lamentando

o escárnio que conduz ao desencontro de ações benevolentes.

As ruas são como cicatrizes que nos guiam para a ilusão da consciência;

a inquietação nos impede de intuir

o que as construções têm a nos dizer.

Guiamo-nos pelo desejo de tudo agora;

a cidade é coagida a destruir pessoas e projetos

confinando-os em prisões que os enchem de autoconfiança,

mas tão frágil diante do inevitável.

A cidade não entende por que nasceu sob

‘apartheid’, minuciosamente arquitetada por

planejadores motivados por uma ilusão de superioridade.

A cidade parece mais harmoniosa aos olhos

daqueles que a sobrevoam.

Prédios grandes e pequenos parecem abraçar

uns aos outros como velhos amigos.

Pequenos seres com grandes aspirações movem-se

por ruas e calçadas, sem se olharem, em direção

aos bairros cheios de ansiosidade e conceitos territoriais;

lá de cima, tudo parece fazer sentido:

parques e árvores contornam o desespero que alimenta

a violência cotidiana;

carros, drogas e prostituição competem com vitrines

decoradas para datas comemorativas.

A cidade moderniza-se, mobiliza-se,

mas não se humaniza —

as lágrimas da chuva escorrem apenas pelos prédios.

Poema de Heider Broisler - traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection - que também consta na obra Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas.

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