Um homem com
oitenta e poucos anos falecera em um dos apartamentos do condomínio — dois
andares abaixo do apartamento onde residia a celebridade, que se ausentara para
cumprir uma de suas agendas sociais: um evento social sobre sustentabilidade e meio
ambiente patrocinado pelo Governo Federal em parceria com uma ONG norueguesa.
Políticos,
empresários, cantores, atores, jornalistas, intelectuais e influenciadores
discursariam sobre a importância de ensinar música, dança e pintura às meninas
e meninos residentes em favelas de palafitas como um grande instrumento de
inclusão social.
Daniel e Íris
observavam o desespero da família do falecido. Choros e gritos acompanhados de
certa confusão. Ela se interessou pelo acontecido: a morte era algo intrigante
para uma bioandroide. De fato, a morte é libertadora em vários aspectos, pois,
de agora em diante, o falecido seria pintado como um santo caído dos céus.
Esquecer-se-iam
de suas traições, trambicagens, egoísmo extremado, que muitas vezes, levava-o a
se satisfazer com a humilhação alheia; no entanto, o script é quase sempre o
mesmo no final: falhou como pai, esposo, homem de negócios; por fim, um zero à
esquerda clássico com a proeza de conquistar o maior dos fracassos: fracassar
como ser humano.
A lábia e o
sorriso falso do falecido de forma plausível continuariam a enganar seus
estúpidos herdeiros: um bando de cabeças de bagre inspirados a imitar as
falcatruas do patriarca. Incluir-se-ia nesse show de horrores os bajuladores de
plantão: eternos sonhadores de generosas migalhas. Não! Nada de estrelinha no
céu. O falecido estaria mais para esterco. Verdade seja dita: seu maior crime
foi enganar a si mesmo. Ele despencou com uma ilusória grandeza sem habilidades
cognitivas para aceitar que nunca passou de um peixinho metido a tubarão
branco.
Racista,
vagabundo, falso e ordinário; agora, com a morte de seu corpo nojento e
decrépito, que destino teria sua alma? Aqui é fácil enganar uma sociedade cheia
de tolos. Lá! Sabemos que existe um ‘lá’, que nossos olhos não conseguem ver -
não é nota musical não! — lá não há tolos para ludibriar.
Daniel
conhecia a história do falecido, mas preferiu assistir ao corre-corre da
família em silêncio — chegara aos ouvidos de Daniel que o falecido costumava
criticá-lo: chamava-o de vagabundo, vez por outra, um homem com poucas
ambições; no entanto, nem as críticas e o recém-falecimento levaram sofrimento
à mente de Daniel. Seus pensamentos eram imunes às críticas recebidas como
também imunes à felicidade do falecimento de quem o criticava.
Trecho do
livro Júlia & O Despertar de Íris e 25 poemas do autor Heider Broisler.